Por que comemos sem fome?

Precisamos comer para obter a energia indispensável para viver: mover-se, respirar, construção e manutenção de nossos órgãos… Tudo está relacionado com a ingestão de alimentos e a fome aparece para que cumpramos com ela e evitar um déficit de energia que põe em risco a nossa sobrevivência.
Mas então, por que às vezes temos apetite pouco tempo depois de ter comido? ou Por que somos capazes de tomar chá duas vezes por noite se estamos assistindo tv e não comemos nada, se saímos para dar um passeio à mesma hora? Alguns destes comportamentos nos indicam que estamos comendo sem fome, mas isso não quer dizer que não sintamos o desejo de comer, algumas vezes, até mesmo irresistíveis.

Comer sem fome, o que nos acontece?
A conduta de ingestão é regulada por dois mecanismos: um que nos motiva a comer, e outro, que inibe a ingestão de alimentos. São processos que dependem em grande parte do nível de glicose no sangue, a curto prazo, e do tecido adiposo no longo, mas é também influenciada por outros fatores externos, como veremos a seguir.
Os sinais de fome e saciedade estão envolvidos, a grandes traços, mecanismos cerebrais (tronco do cérebro, o hipotálamo) e hormônios como a grelina, que aumenta com o jejum, ou a leptina, que inibe a ingestão de alimentos e aumenta o metabolismo. O estômago, o intestino ou fígado contêm receptores que detectam a presença ou ausência de nutrientes, mas, para além da fisiologia do comportamento alimentar, que é bastante complexa, um cheiro, uma imagem atraente, uma lembrança ou um momento de nervos, podem ativar a sensação de apetite.
Há que ter em conta que a fome constitui uma ameaça maior para sobreviver que o comer em excesso, e os mecanismos para detectar que precisamos de comer são muito mais eficientes que os responsáveis de evitar a superalimentação.
Fatores que nos incitam a comer

O escritor Mark Twain dizia que o homem é o único animal que come sem ter fome e bebe sem ter sede. Sem entrar em se temos ou não a exclusiva, estes são alguns fatores que nos estimulam o apetite mesmo com o estômago cheio:
Características dos alimentos: Os que têm muito açúcar adicionado ou são muito salgados, que nos são mais apetecíveis porque associamos o seu sabor com uma maior quantidade de nutrientes. Custa-Nos comer só batata frita ou um biscoito de chocolate, e isso também se deve a sua alta palatabilidade, isto é, o agradável que nos são para o paladar, a visão e o olfato.
Muita variedade para escolher: Se temos muitas opções tenderemos a querer experimentar um pouco de tudo e será mais difícil controlarnos que se nos limitamos a um prato único ou dois pratos.
Fatores sociais e culturais: Celebrar uma festa, estar rodeados de família, compartilhar um momento importante como uma festa de casamento ou no dia de Natal, são momentos que podem fazer com que comamos em excesso, praticamente sem perceber. Hábitos como ter uma hora fixa para almoçar, lanchar ou um petisco sempre que temos visitas, nos incitam a comer por si mesmos.
Não dormir o suficiente: A falta de sono produz alterações nos hormônios, encarregadas de regular o apetite, e faz com que tenhamos mais fome e nos decantemos por alimentos mais calóricos.
Confundir sede com fome: nem sempre é fácil distinguir quando o nosso corpo necessita de hidratação ou comida, o que, às vezes, aliviamos a sede ou a sensação de boca seca com alimentos em vez de água.
O tédio: Em uma sociedade sempre em movimento, estar sem fazer nada, pode se tornar um ato heróico. Às vezes simplesmente comemos para evitar essa sensação de vazio, de não ter nada nas mãos ou não estar envolvido em nenhuma tarefa.
Os circuitos de recompensa
Hoje em dia temos à nossa disposição uma variedade de alimentos fabricados para serem agradáveis ao paladar. Comer nos produz um intenso prazer e isso estimula nossos mecanismos de recompensa, mediados pelo hipotálamo, de forma semelhante a como podem fazê-lo algumas dependências.
Este circuito de recompensa do cérebro se ativa quando antecipamos que vamos comer, reforçando nossos comportamentos e criando hábitos que, uma vez adquiridos, são difíceis de abandonar. Perante este tipo de alimentos que colocamos no modo “automático” perdendo a conta da ingestão total. Distrações como ver televisão ou ao trabalhar enquanto comemos, fazem com que ainda agir de forma mais inconsciente, agravando o problema.
Efeitos do estresse ou ansiedade de comer

Quando a jornada se nos torna difícil, e sentimo-nos irritados e cansados do stress, é fácil cair na tentação de nos dar um “prêmio”, que muitas vezes consiste em alimentos ricos em calorias, ricos em gorduras saturadas e açúcares.
Em situações prolongadas de stress hormônio grelina é alterada, aumentando o nosso apetite. Por outro lado, comer pode acabar sendo uma forma de aplacar situações de nervosismo, ansiedade ou angústia, com o que não o estado em que nos encontramos.
Assim, passamos do comer por ter ansiedade a ansiedade por comer, usando os alimentos como calmantes e perdendo o controle de sua ingestão.
O que podemos fazer?
Um primeiro passo, se não podemos evitar de comer, é encher nossa despensa e nossa geladeira de alimentos saudáveis e de satisfação (frutas, legumes, cereais integrais, legumes…), que não tenham um grande aporte calórico. Os petiscos leves e saudáveis não apenas nos impedem de engordar, mas que também ajudam a deixar de ser tentado continuamente por comida. Não se trata de comer menos, mas comer melhor.
Recuperar os sabores naturais, como o doce das frutas, fará com que o nosso paladar deixe de estar sobreestimulado por sabores artificiais, e nos seja mais fácil distinguir quando temos fome real ou fome emocional.
Comer com consciência, saboreando cada bocado, evitando as distrações externas e perguntando antes de começar “por que eu quero comer agora?” serve-nos para aprender a ouvir e distinguir se estamos com fome, ansiedade ou tédio.
Como já comentado, dormir bem também é importante, assim como praticar exercício físico moderado e buscar outras alternativas para os alimentos que nos dão satisfação, como podem ser ler ou dar um passeio.
Quando o estresse emocional nos leva ao excesso de peso, é recomendável contar com a ajuda de especialistas, como psicólogos ou nutricionistas, que nos guiarão as diretrizes a seguir para modificar nosso comportamento e na forma como nos alimentar de forma adequada.