São as uvas, o novo maná?

A uva, como todas as frutas, é um alimento, cujo consumo é recomendado porque é rica em nutrientes essenciais para o corpo, como vitaminas (ácido fólico e vitamina B6), fibras e minerais -potássio, magnésio e cálcio, principalmente-, além de açúcares e substâncias benéficas como flavonóides, taninos e antocianinas. No entanto, o que suscitou grande interesse por parte da comunidade científica e do público em geral, este pequeno fruto, sobretudo nos últimos anos, é um composto natural presente na uva: o resveratrol.
Cada vez são mais numerosas as investigações centradas em encontrar os compostos dos alimentos e suas propriedades benéficas para a saúde, mas em muitas ocasiões, as conclusões dos diversos estudos são contraditórias, não conclusivos ou não podem se mudar para os humanos ou a uma recomendação geral. É o caso do resveratrol, que às vezes aparece como um grande elixir, por exemplo, contra o envelhecimento, e em outras, ser-lhe-defeito de fraude.
Que é o resveratrol
Tudo o boa brincadeira pode ter sua origem nos anos 60, quando um estudo sobre sete países europeus revelou que apenas a França se salvou da conclusão principal: a de que um maior consumo de gordura saturada e colesterol implica maior risco cardiovascular, o que passou a denominar-se o paradoxo francês. Esta exceção associou-se posteriormente ao consumo de vinho tinto entre os franceses como um contrapeso aos efeitos de sua grande ingestão de foie gras, manteiga ou queijo, por exemplo.
Mas então, várias revisões e a puseram sobre a mesa coisas sobre essa análise, como que as pessoas francesas consumidos de forma moderada de vinho têm hábitos mais saudáveis, com os consequentes benefícios para a saúde. A partir de então, sucederam-se numerosas investigações sobre o vinho, destacando-se seus possíveis benefícios cardiovasculares, levando-o a descobrir o agora famoso resveratrol e algumas de suas propriedades, benéficas ou não.
O resveratrol é um composto natural que ocorre normalmente como resposta imunitária nas plantas após uma agressão ou infecção, que se acumula na pele e em maior proporção na semente da uva vermelha, passando, portanto, ao vinho. Além de ser um composto presente nas uvas, também contêm as framboesas, chocolate preto, as amoras, frutas, amendoim, as nozes, as avelãs e as amêndoas.
Possíveis propriedades do resveratrol
Sobretudo a partir do ano 2000, têm surgido descobertas sobre os potenciais benefícios do resveratrol, muitas vezes em trabalhos com animais ou com o composto purificado, isto é, não em pequenas quantidades que se encontra, por exemplo, no vinho tinto. Daí que não se possa afirmar de forma veemente quanto resveratrol têm que levar os seres humanos, através de quais alimentos ou de que maneira para obter esses benefícios. De momento, não há nada de claro a cem por cento.
Entre os primeiros achados, cabe destacar o realizado por especialistas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, revelaram que em um artigo publicado na revista ‘Nature’ um papel-chave deste composto na ativação de um conhecido gene da longevidade. Esses cientistas viram que o resvetrarol ilumina as sirtuin -uma classe de enzimas – para prolongar a vida da mosca da fruta, em que se provou, daí que começasse a ser considerada como um potencial composto anti-envelhecimento.
E logo se foram apontando outras possíveis propriedades que poderia trazer o resveratrol, de acordo com diferentes análises:
Evitar o câncer: um estudo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, apresentado em 2012 e achou evidência de que o resveratrol pode ajudar a prevenir o cancro. Em particular, os pesquisadores determinaram que em modelos de laboratório uma quantidade diária de este composto equivalente a dois copos de vinho pode reduzir para metade a taxa de tumores do intestino. Agora, haverá que ver se e como isso funciona em seres humanos.
Contra o mal de Alzheimer: especialistas da Universidade de Leeds, no Reino Unido, publicaram um trabalho em 2013 no ‘Journal of Biological Chemistry”, que concluiu que os produtos químicos naturais, como o resveratrol podem ser benéficos para o mal de Alzheimer, ao interromper um passo fundamental para o desenvolvimento desta patologia neurológica, como viram em experimentos de laboratório em fase inicial. Além disso, um ensaio clínico nos Estados Unidos, tornado público em 2015, que testou o fornecimento de altas doses de resveratrol a longo prazo em pessoas com mal de Alzheimer entre leve e moderada, revelou a estabilização de um biomarcador da doença, que costuma cair quando progressão da doença. Detectou-Se que em pacientes que tomou a forma purificada deste composto.
Estimular o sistema imune: uma análise publicada por cientistas norte-americanos em 2013 na revista “Molecular Nutrition and Food Research’ detectou que o resveratrol e o pterostilbeno, presente em mirtilos, estimulam o sistema imune inato dos seres humanos.
A nível muscular: pesquisadores do ‘Virginia Tech Carilion Research Institute’, nos Estados Unidos, informou em um artigo publicado em março passado, no ‘The Journals of Gerontology” sobre a possibilidade de que o resveratrol preserve as fibras musculares, à medida que envelhecemos e ajude a proteger as conexões entre os neurônios chamadas sinapses dos efeitos negativos do envelhecimento. A descoberta foi fruto de um estudo em ratos, por isso que os autores esclareceram que as pessoas não obtiveram os enormes benefícios detectados apenas por beber vinho tinto, uma vez que as quantidades de resveratrol presente no vinho são pequenas.
Para as artérias: em maio passado, pesquisadores da Universidade de Boston, em Massachusetts, Estados Unidos, explicaram que tenham detectado que este composto natural presente no vinho tinto, os amendoins, as frutas e a pele das uvas vermelhas, entre outros alimentos, pode reduzir a rigidez das artérias em algumas pessoas com diabetes tipo 2, possivelmente, ao agir sobre a rigidez aórtica.

Pouca evidência sobre os benefícios do resveratrol
Em todo o caso, o resveratrol não é, nem muito menos, uma possível solução para todos os males. De fato, um estudo publicado na revista “JAMA Internal Medicine’ em 2014 detectou um efeito totalmente neutro de sua ingestão: as pessoas que consomem uma dieta rica em resveratrol não vivem mais tempo e têm as mesmas chances de desenvolver doenças cardiovasculares ou câncer do que pessoas que ingerem através da comida ou da bebida em pequenas quantidades, este antioxidante.

Por outro lado, a Base Completa de Dados de Medicamentos Naturais dos Estados Unidos considera que a evidência existente é insuficiente para determinar que o resveratrol seja eficaz para distúrbios como acne, diabetes, colesterol alto, prevenir o câncer, contra o endurecimento das artérias e dos sintomas da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Assim que, de momento, não se pode colocar vinho a beber ou consumir de forma exagerada, qualquer alimento que contenha este composto pensando em seus potenciais efeitos positivos para a saúde. Ainda há um longo percurso a fazer, como confirmar os achados de estudos com novas investigações, determinar se ocorrem também em seres humanos ou diminuir a quantidade do antioxidante que devem ser ingeridos para que se possa obter alguns de seus possíveis benefícios ou de que maneira fazê-lo.